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Papo de Veterinária
Aug. 26, 2026

Carreira veterinária nos Estados Unidos: o que é preciso para transformar esse projeto em realidade?

Carreira veterinária nos Estados Unidos: o que é preciso para transformar esse projeto em realidade?

Inglês, planejamento, preparo técnico e resiliência fazem parte do caminho para médicos veterinários formados no Brasil que pretendem atuar profissionalmente nos Estados Unidos. A trajetória de Mariana Araújo mostra que a validação do diploma é apenas uma parte de uma mudança que envolve carreira, vida pessoal e disposição para começar de novo.

Construir uma carreira internacional pode parecer um objetivo distante para muitos estudantes e médicos veterinários brasileiros. A perspectiva de exercer a profissão em outro país costuma despertar interesse pelas possibilidades profissionais e financeiras, mas, entre desejar essa mudança e efetivamente obter uma licença para atuar, existe um caminho que exige preparação.

Na Medicina Veterinária, esse percurso envolve ainda uma particularidade importante: ser médico veterinário no Brasil não significa estar automaticamente habilitado para exercer a profissão em outro país. Foi sobre esse processo — e, principalmente, sobre tudo o que existe ao redor dele — que a médica-veterinária Mariana Araújo conversou com Thaís Rocha no Papo de Veterinária. Formada pela Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES), onde também realizou residência em Clínica Médica de Pequenos Animais, Mariana passou pelo processo de certificação do Educational Commission for Foreign Veterinary Graduates (ECFVG) e obteve habilitação para exercer a Medicina Veterinária nos Estados Unidos.

Curiosamente, trabalhar fora do Brasil não fazia parte de seus planos quando entrou na faculdade.

 

Uma carreira internacional pode começar muito antes da mudança de país

Mariana ingressou na graduação já interessada na clínica de cães e gatos. Sua formação, entretanto, aconteceu em condições que talvez sejam familiares a muitos estudantes: ela precisava conciliar faculdade e trabalho. Enquanto alguns colegas conseguiam participar de diferentes grupos de estudo, monitorias e estágios, sua disponibilidade era limitada. A alternativa foi aproveitar intensamente as oportunidades que estavam ao alcance: a rotina do hospital veterinário da própria instituição, períodos de férias, estágios pontuais e tudo aquilo que pudesse acrescentar experiência à formação. Essa vivência deixou uma lição que ultrapassa a questão da carreira internacional: um currículo não precisa ser construído da mesma maneira por todos os estudantes.

Quem trabalha durante a graduação, mora longe da universidade ou possui outras responsabilidades não deve medir a própria formação exclusivamente pela quantidade de atividades extracurriculares realizadas por colegas que vivem outra realidade. Da mesma forma, desempenho acadêmico e desempenho profissional não são sinônimos. Para Mariana, as dificuldades enfrentadas durante a faculdade chegaram a provocar dúvidas sobre sua capacidade profissional. Anos depois, a trajetória mostraria que notas obtidas durante a graduação eram apenas uma das muitas partes de sua formação. O conselho para quem vive uma realidade semelhante é simples: aproveitar bem aquilo que é possível fazer naquele momento e continuar construindo conhecimento ao longo da carreira. 

 

O plano de trabalhar fora não existia

Depois da graduação, Mariana permaneceu durante anos vinculada ao hospital veterinário da universidade e assumiu também responsabilidades administrativas e de gestão. Tinha emprego, estabilidade profissional e uma rede de contatos já estabelecida. Morar nos Estados Unidos não era um projeto. A mudança começou depois de um período de intenso desgaste profissional. Ao deixar o trabalho que exercia há anos, Mariana decidiu passar um período nos Estados Unidos e estudar inglês. Uma série de acontecimentos pessoais fez com que a permanência no país deixasse de ser temporária. Foi somente então que surgiu a pergunta decisiva: seria possível voltar a exercer a Medicina Veterinária?

Inicialmente, o processo de validação parecia complexo demais. Antes de assumir a função de médica veterinária, Mariana começou a trabalhar em hospital veterinário em uma função de apoio técnico. A experiência permitiu conhecer por dentro a rotina profissional nos Estados Unidos, desenvolver o inglês técnico e compreender melhor a dinâmica das equipes veterinárias. O contato com outros médicos veterinários formados fora do país, que também haviam passado por processos de equivalência profissional, foi decisivo para mudar sua perspectiva. Aquilo que inicialmente parecia impossível passou a ser visto como um projeto difícil, mas possível. Essa diferença é importante.

 

Quatro pilares para quem pensa em uma carreira veterinária internacional

Quando questionada sobre os elementos fundamentais para quem deseja seguir esse caminho, Mariana apontou quatro: conhecer o processo, dominar o inglês, planejar financeiramente e desenvolver resiliência emocional. O primeiro passo é particularmente importante porque validação profissional e imigração são questões diferentes. Um médico veterinário pode preencher requisitos profissionais para exercer a profissão e, ainda assim, precisar resolver separadamente sua situação migratória. Da mesma forma, possuir autorização para morar ou trabalhar em determinado país não significa estar legalmente habilitado para exercer a Medicina Veterinária. Por isso, pesquisar os dois processos antes de tomar decisões pode evitar perda de tempo, dinheiro e oportunidades.

O segundo pilar é o inglês. Não se trata apenas de conseguir aprovação em um exame de proficiência. O exercício da profissão depende da capacidade de compreender responsáveis pelos animais, discutir casos com colegas, interpretar informações técnicas, produzir registros médicos e tomar decisões em situações nas quais falhas de comunicação podem ter consequências clínicas. Mariana começou a aprender inglês depois de chegar aos Estados Unidos e relata situações que hoje parecem pequenas, mas que foram extremamente desafiadoras naquele momento: não conhecer o nome de um instrumento, precisar atender um telefonema ou compreender rapidamente uma orientação dentro do hospital. A experiência deixou outra lição importante: não dominar um segundo idioma não significa não possuir competência profissional. Mas, para trabalhar em outro país, desenvolver essa competência linguística passa a fazer parte da preparação técnica.

 

Como funciona a certificação de um médico-veterinário formado no Brasil?

Nos Estados Unidos, médicos veterinários formados em instituições não acreditadas pelo Council on Education da American Veterinary Medical Association (AVMA) podem utilizar programas destinados a demonstrar equivalência de formação. O ECFVG, programa seguido por Mariana, é administrado pela AVMA e possui atualmente quatro etapas: comprovação da formação e das credenciais acadêmicas; demonstração de proficiência em inglês; avaliação dos conhecimentos em ciências veterinárias básicas e clínicas; e avaliação das habilidades clínicas.

O percurso envolve, portanto, muito mais que a área de especialidade na qual o profissional pretende trabalhar. Mesmo alguém que tenha construído toda a carreira em clínica de pequenos animais precisará recuperar conhecimentos relacionados a diferentes espécies e áreas da Medicina Veterinária. Foi exatamente esse um dos desafios enfrentados por Mariana, que já estava afastada de diversos conteúdos da graduação quando iniciou sua preparação.

Além da certificação educacional, existe o North American Veterinary Licensing Examination (NAVLE), exame exigido para o licenciamento profissional nas jurisdições dos Estados Unidos e Canadá. Para candidatos vinculados ao ECFVG, a aprovação na etapa de conhecimentos básicos e clínicos do programa é atualmente um dos requisitos para elegibilidade ao NAVLE. As exigências complementares para obtenção da licença podem variar entre estados e jurisdições. Por isso, quem pretende iniciar o processo deve sempre consultar as fontes oficiais antes de planejar provas, prazos e despesas. Regras de elegibilidade, calendários e procedimentos podem ser modificados.

 

O maior desafio talvez não seja a prova

À primeira vista, estudar novamente conteúdos de diferentes áreas e espécies pode parecer a etapa mais difícil. Mariana tem outra percepção. Para ela, conhecimento técnico pode ser recuperado. O desafio maior está em manter disciplina, constância e resiliência durante um processo longo, enquanto a vida continua acontecendo. No seu caso, isso significava trabalhar, cuidar de uma filha pequena e estudar. Havia períodos de cansaço, insegurança e pouca qualidade de vida. A preparação passou a ser encarada como uma fase com começo, meio e fim.

Essa capacidade de enxergar o objetivo de longo prazo talvez seja uma das partes mais importantes de qualquer projeto profissional dessa dimensão. Uma reprovação, uma prova adiada ou uma dificuldade financeira não precisa significar o abandono do projeto, mas exige disposição para reorganizá-lo.

A própria AVMA estabelece limites temporais para determinadas etapas do ECFVG, mais uma razão para que o candidato conheça previamente as regras do programa.

 

Quanto tempo e dinheiro são necessários?

Não existe uma resposta única.

Mariana concluiu seu processo em aproximadamente um ano e oito meses, intervalo que considera particularmente rápido. Outros profissionais que conhece levaram três, cinco ou até mais anos. Disponibilidade para estudar, aprovação ou reprovação nos exames, calendário das provas e disponibilidade para realização das avaliações práticas podem modificar significativamente o tempo necessário. 

O mesmo vale para o custo. Somando exames, preparação, materiais, cursos, deslocamentos, hospedagem e outras despesas, Mariana estima ter investido aproximadamente R$ 95 mil em seu próprio processo. O número, entretanto, deve ser interpretado corretamente: é o custo da experiência individual de uma profissional em determinado período, e não o preço atual da validação de um diploma. Valores oficiais mudam, câmbio varia, candidatos utilizam estratégias de preparação diferentes e reprovações ou deslocamentos adicionais podem aumentar consideravelmente as despesas.

A principal mensagem, portanto, não está no número final, mas na necessidade de planejamento financeiro desde o início.

 

Para o estudante, a preparação pode começar agora

Um dos pontos mais interessantes da experiência de Mariana é que muitos elementos de uma futura carreira internacional podem ser desenvolvidos ainda durante a graduação. Não é preciso esperar a formatura para descobrir o que será exigido depois dela. O estudante pode começar pelo inglês, pesquisar programas de equivalência, conhecer os requisitos profissionais do país onde pretende atuar e entender quais experiências acadêmicas podem fortalecer seus projetos futuros.

Pesquisa científica, estágios, residência, experiência clínica e outras atividades podem ter pesos diferentes dependendo do caminho escolhido. Isso não significa construir a graduação inteira apenas para conseguir sair do Brasil. Significa simplesmente tomar decisões com informação. Quem ainda não decidiu onde pretende atuar também ganha com essa postura. Uma formação sólida, experiências práticas diversificadas, bom domínio de inglês e capacidade de comunicação continuam sendo competências valiosas mesmo que o projeto internacional nunca aconteça.

 

A carreira fora do Brasil também tem problemas

Outro ponto importante da conversa é a necessidade de evitar uma visão romantizada. A Medicina Veterinária pode ser mais valorizada profissional e financeiramente em determinados mercados, mas mudar de país não elimina os desafios inerentes à profissão. Animais continuam não podendo relatar seus sintomas. Médicos veterinários continuam lidando com perdas, eutanásia, limitações financeiras dos responsáveis, divergências entre colegas e decisões emocionalmente difíceis. A ideia de que “a grama é sempre mais verde do outro lado” precisa, portanto, ser relativizada.

O que muda são condições de trabalho, organização profissional, remuneração, estrutura, cultura e possibilidades de desenvolvimento. O peso emocional de cuidar de vidas continua existindo. Essa talvez seja uma das informações mais importantes para quem pensa em uma carreira internacional exclusivamente pelo retorno financeiro.

 

Qualidade profissional atravessa fronteiras

A experiência internacional também reforçou em Mariana uma convicção construída ao longo da carreira: valorização profissional começa pela qualidade do serviço entregue. Protocolos, técnicas, assepsia e decisões clínicas não deveriam ser flexibilizados simplesmente porque determinada prática se tornou comum em determinado ambiente. Para ela, exercer uma Medicina Veterinária de alto padrão significa reconhecer a responsabilidade envolvida quando uma família entrega um animal aos cuidados de uma equipe profissional.

Nem sempre será possível salvar um paciente. O compromisso é outro: tomar decisões tecnicamente justificáveis, trabalhar com responsabilidade e buscar aquilo que representa a melhor conduta possível diante das circunstâncias. Essa postura também acompanha o profissional quando ele cruza fronteiras. Quem trabalha fora deixa de representar apenas a própria carreira e passa, inevitavelmente, a contribuir para a percepção que colegas estrangeiros desenvolvem sobre a formação veterinária brasileira.

 

Networking não é colecionar contatos

Outro elemento recorrente na trajetória de Mariana é a importância das relações profissionais. Foi a rede construída no Brasil que gerou oportunidades quando ela deixou seu emprego. Nos Estados Unidos, colegas contribuíram com conhecimento, incentivo e suporte durante o processo de certificação. Mas networking, nesse contexto, não significa aproximar-se de pessoas pensando apenas no benefício que elas poderão proporcionar no futuro. Boas conexões são consequência de relações profissionais construídas sobre competência, confiabilidade, proatividade, ética e respeito.

As portas que permanecem abertas ao longo de uma carreira geralmente não permanecem abertas porque alguém distribuiu cartões de visita. Permanecem abertas porque as pessoas se lembram de como foi trabalhar com aquele profissional. 

 

A carreira internacional começa pela construção do profissional

A história de Mariana poderia ser resumida pela aprovação em exames, pela certificação ou pela licença para trabalhar nos Estados Unidos. Seria um resumo pobre. A parte mais interessante está justamente no caminho: uma estudante que conciliava trabalho e graduação, uma profissional que chegou a questionar a própria capacidade, alguém que precisou aprender outro idioma já adulta, reestudar conteúdos da Medicina Veterinária, adaptar-se a uma cultura diferente e continuar avançando enquanto cuidava da vida profissional e familiar.

Ao final da conversa, sua principal mensagem sequer se restringe a quem deseja morar fora.

“Seja o que for que você se determinar a fazer na sua vida, faça o melhor que você pode nas condições que tem.”

Talvez essa seja a melhor síntese.

Uma carreira internacional exige documentos, provas e dinheiro. Mas nenhuma dessas etapas substitui aquilo que vem antes: formação consistente, disposição para aprender, boas relações profissionais, responsabilidade, ética e constância. As fronteiras podem mudar. Esses fundamentos, não.

 

Esta matéria foi produzida a partir da conversa de Thaís Rocha com Mariana Araújo no Papo de Veterinária. Para conhecer a trajetória completa, os desafios enfrentados durante a validação e outros detalhes da experiência profissional nos Estados Unidos, assista ao episódio completo no canal Papo de Veterinária ou nas principais plataformas de podcast.

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